Caderno BCapitalGeralGiovanni Dorival

Drama de invisíveis abismos humanos Tesoura promete prender o público

Carência, solidão e auto aceitação são temas da nova produção do TGR

Umas das companhias mais longevas e premiadas de Campo Grande, o Teatral Grupo De Risco estreia, nesta sexta-feira, a peça Tesoura, de Yago Garcia. O drama que se desenvolve a partir do relacionamento conturbado entre dois homens de diferentes faixas etária. “A ideia do roteiro, ela surge com a necessidade de se discutir a questão do envelhecimento homossexual. Como que os homossexuais estão envelhecendo, principalmente, a questão dos homossexuais que estão na periferia. Que estão à margem da sociedade”, explica Yago que viverá um dos protagonistas ao lado do ator Fábio Umêda.

Enquanto musas pop como Madonna e Alessandra Negrini rebatem abertamente o preconceito etário, o silêncio paira sobre o tema quando se trata de homossexuais, com poucas exceções por parte da imprensa, e que agora também ganha voz pelo TGR. “Fazer com que as pessoas reflitam sobre isso. Se isso é autêntico, se isso é verdadeiro, se isso acontece. Porque as vezes a gente fica tapando o sol com a peneira. Parece que ninguém vai envelhecer, e todos vamos envelhecer”, declara Yago.

Debates próprios das Ciências Psicossocial e do Direitos Humanos entre outras áreas do conhecimento, a questão do estigma pelo envelhecimento é ainda pior quando se trata de quem já sofre o preconceito de gênero e identidade sexual. Conforme os primeiros homossexuais assumidos vão envelhecendo surgem relatos de solidão, abandono e até um apagamento da própria identidade. Isso porque, muitas casas de repouso são entidades administradas por setores religiosos, o que os impelem a automutilação. Exemplo disso, é quando mulheres travesti e transexuais se desfazem de próteses para ser aceitas. Assim, a própria história de vida dessas pessoas, se torna um passado distante e negado. É o retorno para o armário.

Yago e Fábio em cena. Foto: Fernanda Kunzler

Essa expectativa de vida futura, sobretudo para aqueles de regiões periféricas, pode vir com a angústia da carência e da solidão que o personagem Mauro, deve vivenciar em Tesoura. “O debate que eu espero suscitar é isso. Fazer com que o público assista e faça uma reflexão de que todo mundo vai envelhecer em algum momento. Só que esses personagens que vivem na periferia, que são marginalizados. Que são homossexuais que de repente não tem um poder aquisitivo tão grande, que se reflita sobre como que é esse envelhecimento deles. E, também, como que é a questão da busca de fugir da solidão. Como que o homossexual busca fugir da solidão. Quais são as suas necessidades. Até que ponto uma pessoa se submete a um amor agressivo por conta de não querer ficar sozinho”, justifica Yago.

Ator Yago Garcia como Mauro. Foto: Fernanda Kunzler

Expressão milenar das relações humanas, o teatro sempre esteve ligado ao debate e a educação do homem na sociedade. Em Tesoura, do Teatral Grupo de Risco, o relacionamento entre o cabeleireiro Mauro e o jovem Sebastian, deverá se desenvolver entremeada por temas ainda tabus em nossa contemporaneidade. “Outra questão que se debate no espetáculo, é aceitação da sua condição homossexual. Então, são duas coisas: um homossexual que já envelheceu, que já está envelhecendo; um outro que ainda está na flor da idade, mas que não se assume homossexual. E tem essa luta entre eles” explica Yago.

Sob a direção de Ewerton Goulart, o espetáculo estrelado por Fábio Umêda e o próprio Yago Garcia, apresenta o cabelereiro de meia-idade, Mauro que leva uma vida difícil e sonha em construir seu próprio salão de beleza. Uma noite, conhece o jovem michê Sebastian, que ganha a vida pela “grana fácil”. O espectador é convidado a acompanhar o desenlace do “relacionamento” entre Mauro e Sebastian, “duas almas que não se podem ver juntas nem separadas, em um estranho magnetismo colérico que os coloca em choque. O desejo, a violência, a aceitação da sexualidade e de si são postos em pauta enquanto Sebastian não se vê satisfeito até que deposite em Mauro seu último grito de ódio”, anuncia a sinopse.

Ator Fábio Umêda como Sebastian. Foto: Fernanda Kunzler

A atriz e diretora Fernanda Kunzler destaca o preconceito sexual como fator dramático e humano que será levantado na peça. “É um espetáculo que trata de uma temática também muito urgente, a violência e preconceito com casais homossexuais…. E para além disso, a não aceitação da sociedade e de si próprio na sexualidade…. São questões que permeiam a peça, porém não se fecha nisso, é mais abrangente no que range as relações humanas e nossa visão frente a diversidade e pluralidade”, justifica.

Parte do projeto TGR em DEPOIS DO FIM DO MUNDO, aprovado no edital de Fomento ao Teatro via Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Campo Grande (FOMTEATRO/SECTUR/PMCG), o espetáculo Tesoura é uma das atividades que celebra os 35 anos de existência do grupo que segue fiel a sua história de propor debates em terno de assuntos necessários e próprios da vida e das relações humanas. “Daí que se dá a importância de refletir sobre o assunto”, diz Fernanda.

Com temas de intensa carga dramática e que, na história da sociedade pode levar a uma superação sublime ou a tragédia, Tesoura se anuncia como convite para que, ao vivenciar com Mauro e Sebastian as questões a eles apresentadas, descubramos caminhos para um envelhecimento saudável e a aceitação da diversidade sexual no mundo. Contudo, se as personagens seguirão o melhor caminho, é algo que o expectador só descobrirá no desenrolar do drama, ao vivo e in loco. É o teatro da vida que acontece no momento presente.

 

 

Com entrada gratuita, o espetáculo Tesoura ocorrerá nesta sexta-feira (05) e sábado (06), as 19:30h, no novo espaço do TGR, localizado na Rua Trindade, nº 401, bairro Jardim Paulista.

 

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