O deus da ” prosperidade “
Vivemos sob o domínio de um deus silencioso, que jamais fala, mas a quem todos obedecem: o deus do amanhã. Ele reina sobre corações inquietos, mentes calculistas e mãos que apertam o que têm com medo de perder. Seu culto é discreto, mas feroz. Seus sacerdotes falam em nome da prudência, da prosperidade, da responsabilidade. Sua liturgia é a da poupança, do investimento, da promessa de recompensas futuras para quem hoje se sacrifica com afinco.
Esse deus não exige orações, apenas temor. É o medo do futuro que o sustenta — e o medo, por sua vez, alimenta a avareza. Guardar, acumular, reter. Trabalhar não pelo bem do outro, mas pela segurança própria. Poupar não por amor à temperança, mas por desconfiança da providência. Esse é o espírito que molda a alma do mundo moderno.
A avareza é, porém, mais do que a retenção de dinheiro ou bens. Ela é uma estrutura do olhar, um modo de se colocar no mundo. O avarento pensa em si antes de tudo e em relação a tudo. Crê merecer o melhor atendimento, o melhor lugar, o melhor objeto, a melhor marca — e considera um insulto quando algo lhe foge à expectativa.
Sente-se diminuído se precisa ceder passagem a outro carro, irrita-se se alguém demora dois segundos a mais no semáforo. Sente-se doente e insultado se paga mais por um produto, se perde uma promoção, se é mal atendido na loja ou restaurante, se lhe atrasam um pagamento.
O tempo, para ele, é um bem a ser capitalizado. Idolatra o tempo como extensão de seu domínio. Por isso, abomina tudo o que o faz parar, esperar, perder o controle. Não crê na eternidade, tampouco na imortalidade: só conhece o agora como instrumento do depois. Seu coração vive na ansiedade do próximo instante

