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Deputada Gleice Jane destaca mandato coletivo das mulheres e alerta para avanço da misoginia e da violência em MS

Em entrevista concedida ao jornalista Marcelo Nogueira, do Notícias do Pantanal, a deputada estadual Gleice Jane (PT) falou sobre a construção de seu mandato, os desafios da pauta das mulheres, a persistência da violência de gênero em Mato Grosso do Sul e as projeções para sua campanha de reeleição em 2026.

Ao comentar sobre a formação de sua equipe, majoritariamente feminina, Gleice explicou que sua atuação política é resultado de um processo coletivo. “Esse mandato não é um desejo meu. É um desejo de muitas mulheres”, afirmou. Segundo ela, sua trajetória na educação a aproximou do movimento feminista e fortaleceu o entendimento de que era preciso ocupar espaços de poder para transformar a realidade das mulheres.

Mandato construído a partir da luta das mulheres

A deputada relembrou que a decisão de disputar uma vaga na Assembleia não surgiu de um projeto pessoal, mas de uma construção coletiva iniciada ainda na militância educacional.

Ela destacou que 2016 foi um marco em seu engajamento político mais direto, especialmente após o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. “Era muito perceptível que os ataques à Dilma estavam relacionados ao fato de ela ser mulher”, afirmou. Para Gleice, aquele episódio revelou uma estrutura política baseada em interesses individuais e machistas, o que reforçou sua decisão de entrar na disputa eleitoral.

Em 2018, Gleice concorreu a deputada federal, ficando como suplente; em 2020, disputou a vereança em Campo Grande; e em 2022 conquistou seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa.

“Pensar política sob a perspectiva das mulheres”

Ao defender a presença feminina nos espaços de decisão, Gleice ressaltou que sua atuação vai além da pauta da violência doméstica.

Ela afirma que enxergar políticas públicas a partir do olhar das mulheres significa compreender toda a rede social e laboral que elas sustentam:

– Na educação, onde estudantes, professoras, merendeiras e mães formam a espinha dorsal das escolas.
– Na saúde, tanto como trabalhadoras das unidades quanto como responsáveis pelo cuidado da família.
– Nos territórios indígenas, quilombolas e periferias, onde as mulheres são fundamentais na organização comunitária.

“Não é só sobre ter mulher no espaço. É pensar a política sobre esse viés.”

Violência contra mulheres: “MS é um estado misógino”

Um dos pontos mais contundentes da entrevista foi a análise da deputada sobre o cenário da violência contra mulheres em Mato Grosso do Sul.

Ela foi categórica ao afirmar que o Estado figura há anos entre os primeiros do país em índices de feminicídio e violência doméstica. “É um Estado misógino. Culturalmente, a gente odeia mulheres”, disse.

Gleice defende que o enfrentamento ao feminicídio não pode se limitar à segurança pública. Para ela, o problema é estrutural e cultural: “o que faz um homem achar que tem o direito de bater ou matar uma mulher?”

A deputada criticou a falta de prioridade do governo estadual, citando a rejeição, pela base governista, de sua proposta para destinar parte do Fundo Estadual de Segurança Pública a políticas específicas para mulheres. Ela também cobrou a criação da Procuradoria da Mulher na Assembleia Legislativa, já presente em outros parlamentos do país.

Educação como eixo central de transformação

Gleice reforçou que a prevenção da violência e a mudança cultural exigem investimento permanente na educação. Ela defende políticas que incluam apoio psicológico às famílias, formação continuada e programas que dialoguem com jovens sobre respeito, convivência e direitos. “Se não discutirmos essas relações desde cedo, não haverá segurança pública que dê conta.”

Projeções para 2026: “Nada é fácil para as mulheres”

Ao falar sobre as eleições de 2026, a deputada confirmou que será candidata à reeleição. Ela avalia que o trabalho realizado vem sendo reconhecido, mas admite que enfrentará resistências: “é um tipo de trabalho que incomoda. E incomodar não agrada muita gente.”

Gleice destacou que deve enfrentar dificuldades financeiras na campanha, especialmente quando comparada ao padrão de financiamento de candidaturas masculinas. Ainda assim, demonstra confiança: “eu não ando sozinha. Esse mandato é das mulheres, da educação, das aldeias, da periferia.” Segundo ela, o apoio crescente das comunidades é o que dá base e motivação para seguir na disputa.

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